OS CÃES DE GUARDA DOS DONOS DESSE PAÍS

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A fragilidade de nossa democracia tem ligação com a não ruptura com a ditadura de 64. Não punimos os terroristas de estado e torturadores, permitimos mesmo que um deputado eleito democraticamente exaltasse um deles na tribuna. Nossa Comissão da Verdade só conseguiu, a duras penas, expor meias verdades, sendo cerceada na sua missão de acertos de contas. E os entulhos da ditadura foram ficando pelo caminho, impedindo que nossa democracia fosse fortalecida e se mostrasse frágil como no momento atual.

Um dos maiores entulhos da ditadura militar foi a permanência intacta de uma polícia militarizada. Mesmo treze anos de um governo que se dizia popular não foi capaz de tocar nos cães de guarda da elite branca e capitães do mato, que são usados para manter a periferia amordaçada e terrificada. Aqui no Rio sob um pretenso projeto de pacificação, que faz uma guerra aberta aos moradores das comunidades, temos vítimas diárias de uma guerra às drogas inútil, que esconde seu verdadeiro objetivo que é subjugar os pretos e pobres da periferia.

Na greve geral do último dia 28, negada pelas elites e silenciada pela mídia, foi permitido à famigerada polícia militar exibir sua truculência para, deliberadamente e de forma covarde, atirar bombas de gás e balas de borracha numa multidão que se reunia pacificamente em praça pública para protestar contra as reformas trabalhistas patrocinadas pelo patronato e que tira direitos de trabalhadores, conquistados com muita luta em mais de cinquenta anos.

A mídia silenciou sobre a greve e sobre a truculência da polícia. Evidenciou muito mais o comportamento de alguns mascarados – e dentre eles, certamente, agentes provocadores da própria polícia – como se isso pudesse justificar um quase massacre em praça pública.

No Rio não houve o ato programado. Vários são os vídeos que demonstram – sem sombra de dúvida – que a polícia chegou atirando bombas sobre e contra a multidão, colocando em risco crianças e idosos. Os vídeos demonstram ainda que o palanque – onde estavam deputados e entidades que patrocinaram o ato – foi desmontado com tiros de bombas e balas de borracha, disparados propositalmente em seus ocupantes, que interromperam discursos para pedir que a polícia parasse de atirar contra o povo. E ainda provocou pânico na população sitiada, fechando todas as ruas que davam acesso ao local do ato com verdadeiro bombardeio. Não satisfeita, perseguiu implacavelmente quem escapava do cerco até a Lapa, o bairro da Glória e arredores.

Parecia que tínhamos voltado aos tempos mais repressores da ditadura. E a mídia, como lá também, silenciou o absurdo vivido por uma multidão. Só foi possível saber a dimensão da covarde atuação da PM pelos participantes do ato, que usaram as redes sociais para denunciar, e pela a imprensa estrangeira, que fez uma cobertura decente sobre o incidente.

Estivéssemos num estado de direito, o governador demitiria o comandante da PM e mandaria apurar as responsabilidades pelo acontecimento. Creio que, mesmo assim, os organizadores do ato devem processar o governador e o comandante da PM pela responsabilidade. Se ainda tivermos resquícios de justiça, o ministério público devia investigar o excesso cometido contra o povo desta cidade.

E mais claro fica a necessidade do fim de uma polícia militarizada, que todos os dias ataca as populações periféricas – que também não tem a voz na mídia, como não teve o ato – não com balas de borracha, mas de verdade. E essa é uma verdade criminosa.

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ilustração: Latuff

Um comentário em “OS CÃES DE GUARDA DOS DONOS DESSE PAÍS

  1. Comentário adequadíssimo às condições de pânico provocadas pelos facínoras comandados por canalhas, truculência que passa pelo poder de um governador imbecil e corrupto da pior espécie!

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