FRANÇA: Pós-Verdade ou Verdade Anterior?

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Não estamos sozinhos numa caminhada à direita que sacode o planeta nessa crise cíclica do capitalismo. Em seu avanço globalizado, globalizou também a crise. A resposta antiglobalização para permitir a sobrevivência do capital não se fez tardar.

Primeiro foi o Brexit. Ameaçados em seus empregos pelos migrantes que não cessavam de atravessar a Mancha, os ingleses preferiram a separação da Comunidade Europeia. Cortaram o cordão que os ligava ao continente de forma inconteste. Agora a primeira ministra antecipa as eleições para rearrumar a casa conservadora. Depois os americanos elegeram um bufão que prometia a preocupação primeira com os empregos que os brancos de direita vinham perdendo. Externamente já apertou o botão de bombas na Síria e da maior de todas no Afeganistão. Podemos recomeçar a paranoia da guerra fria. Ela interessa a divisão do mundo pós-globalização, se for preciso voltar atrás para salvar o capitalismo.

A jogada da vez acontece na França. Havia um espectro de matizes ideológicas e novidades pós-modernas nos tempos de pós-verdade com onze candidaturas, das quais quatro disputaram o primeiro turno com chances de classificação. Os dois partidos tradicionais à direita e esquerda, o Republicano de Sarkozy e o Socialista de Hollande. Um azarão que fundou um partido de centro e foi a surpresa maior. Um partido mais à esquerda, ligado a renovação esquerdista europeia; e a opção de extrema direita comandada por Le Pen.

O primeiro turno acontecido ontem surpreendeu. Os partidos tradicionais foram rejeitados, assim como a esquerda que se apresentava como nova. Teremos a disputa final entre a extrema direita e uma centro-direita algo indefinida que se apresenta de acordo com o conceito de pós-verdade, palavra eleita pelo Oxford Dictionaries como a palavra do ano e que foi definida como um substantivo “que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”.

Macron é um bem-sucedido ex-banqueiro, ocupando vários cargos públicos, chegando a ministro da Economia no governo socialista. Recusa uma definição política, mas nas suas passagens nos governos defendeu propostas liberais tendo elaborado uma lei – que leva seu nome – em que pretende “destravar a economia francesa”, ou seja flexibilizar a proteção ao trabalho, numa clara posição à direita. Não se define na esquerda nem na direita e fundou um partido com o sugestivo nome de “Em marcha!”. Se opôs à esquerda e à extrema direita por pretender manter a França na Comunidade Europeia. Enfim, não importa quem seja Macron: os fatos objetivos nos quais eles se ancora tem menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais. Portanto se afirmou como um candidato da pós-verdade.

Uma incógnita. Mas ao mesmo tempo a âncora. Le Pen seria a Trump francesa, com um desastre bem maior à vista, já que a França – encravada na Europa e sendo parte indissociável dela – teria um efeito maior na política mundial se rompesse pela direita no equilíbrio do planeta. Se Macron é o candidato da pós-verdade e uma incógnita, Marie Le Pen é uma candidata da verdade anterior, do pesadelo que queríamos ter esquecido.

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desenho: 1000TON

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