O FASCISMO NA VOZ DAS RUAS

Já aqui comentei sobre os dois policiais que foram filmados executando dois suspeitos, baleados e caídos no chão sem defesa. A imagem é impressionante: os policiais chegam próximos às vítima e atiraram na cabeça de cada um. Mas mesmo assim, vista em vídeo, eles alegaram “legítima defesa”. Na mesma operação foi assassinada uma criança, dentro de uma escola onde ocorria o tiroteio. A perícia revelou que uma  das balas que mataram a menina saiu da arma de um dos executores. Houve suposições de que a menina trabalhava no tráfico como, se fosse verdade, o boato autorizava a execução dela também. O horror aconteceu dentro de uma escola numa comunidade da periferia do Rio de Janeiro, há apenas dez dias.

Os policiais foram presos. Mas já foram soltos ontem pelo juiz Alexandre Abrahão, do 3o. Tribunal de Júri do Rio de Janeiro. Alegou que ouviu a voz das ruas. E arrematou: “As relações sociais mudaram, e a magistratura precisa mudar também. O juiz moderno não pode mais ser aquela figura da ‘torre de marfim’, especialista em Direito, mas insensível ao que acontece fora de seu gabinete”.

O juiz até pode ter razão de que há uma maioria, que antes era silenciosa e envergonhada, defendendo abertamente a pena de morte e o justiçamento, desde que aconteça aos pretos e pobres que insistem em viver nos espaços dos quais eles se acham proprietários – quando abrem a boca para dizer que pagam impostos e querem a lei agindo em benefício deles. Pode até ter razão o juiz por concordar e se achar um dos “homens de bem” que desancaram a berrar seu discurso fascista. Mas se ainda nos restar um mínimo que seja de estado de direito, um juiz tem apenas que aplicar a lei e não inventar uma a seu bel prazer porque concorda com a voz de justiçamento ilegal que vem das ruas.

O fascismo parece nos alcançar por todos os lados. O discurso do ódio parece vingar. A justiça deixa de ser justiça a cada dia. o parlamento viola seu estatuto e repete uma votação porque tem que agradar ao presidente usurpador. Os ladrões exercem um poder ilegal para fazer a vontade dos donos desse pais. A mídia ajuda na produção do discurso do ódio, apoia a falta de justiça para agradar seus patrões, incentiva o parlamento a votar o que é ruim para a nação, retrata o juiz justiceiro beijando a mão de um presidente que é réu em processos da sua vara.

Desmoralizada as nossas instituições, um juiz pode soltar assassinos por ter ouvido e concordado com o fascismo na voz das ruas.

Chegamos ao fundo do poço, se é que esse poço tenha fundo.

 

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