UMA ANTÍTESE: POLÍCIA PACIFICADORA QUE FAZ A GUERRA

Leio agora que a Segurança da FIOCRUZ(1) está em estado de atenção motivada por uma incursão da polícia nas comunidades de Mandela e Varginha, no Complexo de Manguinhos(2). Há várias semanas, a Avenida Leopoldo Bulhões(3), que corta a comunidade e é um dos acessos principais da FIOCRUZ, vem sendo interditada por tiroteios de enfrentamento de policiais e traficantes.

Prestei assistência médica àquela comunidade, por um período de quase três anos, sendo empregado da FIOTEC, uma espécie de Organização Social pública daquela instituição de pesquisa. Portanto conheço os problemas daquela comunidade de perto, o que não difere das outras comunidades abandonadas pelo poder público.

Posso assegurar que as Clínicas de Saúde da Família, apesar das deficiências acumuladas em outras áreas, prestam um serviço relevante, de reconhecimento das comunidades, pelo esforço do seu corpo de servidores: médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde, com destaque para os agentes comunitários e quadro de apoio que pertencem à comunidade.

Mas há situações de agravamento de saúde da comunidade que não estão ao alcance dos profissionais de saúde. A situação de desemprego, falta de vagas nas escolas, ociosidade dos jovens, falta absoluta de saneamento básico, construções insalubres, miséria, fome, subnutrição, a vulnerabilidade e uso de drogas exigiriam ações do estado muito além das ações de saúde pública que são desenvolvidas. E posso afirmar que o Estado fechou os olhos para essas questões imbricadas e elegeu o combate às drogas, com a instalação das eufemistas Unidades de Polícia Pacificadora, braço armado da Polícia Militar dentro da comunidade, como único problema existente.

Temos um problema semântico: polícia pacificadora no “combate” às drogas (que personifica o traficante) é uma antítese. Podemos dizer que essa prosopopeia (figura de linguagem) inventada pelo governo foi infeliz. Não se combate às drogas com a polícia, evidentemente o combate é feito à pessoa que vende/usa drogas. Além de prejudicar as ações de saúde que pode tratar o abuso de drogas como problema de saúde.

Portanto, a eleição de apenas o problema das drogas, com um combate sistemático, levou uma guerra para dentro das comunidades não respeitando as pessoas que ali moram. O estado de guerra elege como inimigos membros da comunidade e essa guerra vem gerando perdas de vida desnecessárias de um lado e de outro, com a penalização de civis que não participam dos exércitos em combate. E não existe bala perdida quando se atira dentro da comunidade. Quem conhece suas ruelas e casas trepadas uma nas outras, crianças brincando em valas negras, mulheres fazendo atividades da vida diária, sabe que a bala vai achar uma vida a ser tirada. Quase sempre quem não está participando da guerra, mas mora dentro dela. Na linha do tiro.

Já se sabe que a guerra ao tráfico mata mais que o uso de drogas. Portanto essa é uma guerra perdida. Ao menos que se queira, deliberadamente, manter os pobres e pretos sob o controle da força.

Uma agente de saúde, quando perguntada sobre a diferença do domínio do tráfico e do domínio da polícia, foi esclarecedora: “quando os traficantes mandavam na comunidade, embora fosse uma situação absurda de insegurança, eles respeitavam quem não estava envolvido com seus problemas. Agora, para a polícia, parece que somos todos inimigos“.

Manguinhos está novamente em alerta. Um exército está fazendo incursão numa comunidade em que se esconde o exército inimigo. Tomara que não tenhamos mais outras vítimas encontradas pelas balas que se cruzam nesse combate.

A guerra às drogas é burra. A polícia pacificadora inútil. E essa inutilidade burra provoca mortes desnecessárias.

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Notas:

(1) Fundação Oswaldo Cruz, instituição pública, no Rio de Janeiro, que desenvolve pesquisas em ciências biológicas, de reconhecimento internacional.

(2) Complexo de Manguinhos, conjunto de favelas que ficam no entorno da FIOCRUZ, das quais fazem parte Mandela e Varginha (esta última onde o papa Francisco resou missa na sua visita ao Brasil)

(1) Avenida Leopoldo Bulhões, pelos constantes embates, [e também conhecida como Faixa de Gaza.

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