O VIRTUAL NO LUGAR DO REAL

afogamento selfie

Ah, os cartunistas! Conseguem dizer em alguns traços imaginativos o que algumas teses de doutores levam centenas de páginas para afirmar alguma coisa da realidade, depois de algumas pesquisas. Ao lado de um palpiteiro, que nem eu, eles são refinados intérpretes da realidade. Enquanto eu apenas tento passar por perto e às vezes erro redondamente, dando volta em torno de conjecturas improváveis, eles quase sempre acertam na mosca.

Há alguns anos uma charge chamou minha atenção e a reproduzo aqui, mesmo sem saber quem é o genial autor[1], pela precisão de uma realidade antecipada. Na charge, uma mão de um afogado pede socorro em um lago, enquanto as pessoas – ao invés de ajudar o afogado – usam seus celulares para selfies do inusitado afogamento. Mesmo chamando a atenção pelo exagero da situação, mostrava como estávamos nos tornando espectadores da realidade e que o mundo virtual vinha tomando lugar do mundo real. Mais importante passou a ser o registro da vivência do que ela em si. Viver passou a ser menos importante do que colocar o vivido no mundo virtual, nas redes sociais. Uma vez no Louvre, diante da Mona Lisa, espantei-me com a quantidade de selfies com o quadro ou o registro de sua foto para guardar. Não entendia como se perdia um momento precioso para apreciar a obra de arte. Fotos delas tem milhares na internet, muito melhores dos que as conseguidas nos celulares e nas máquinas fotográficas dos japoneses (que ainda as usam).

Mas voltando ao chargista do afogamento, o que eu entendia ser exagero na denúncia correta era só a antecipação da brutalidade do humano. Virilizou, como dizem, nas redes sociais uma patroa filmando a empregada cair da janela do sétimo andar – privilegiando o espetáculo (que depois foi postado orgulhosamente nas redes sociais) – em vez de ajudá-la a sair da situação periclitante. Foi no Kuwait. As imagens são terrificantes, para que teve a coragem de vê-las, parecendo que a maldade humana não tem medidas. A vaidade da patroa com seu filme virilizado fez a polícia prendê-la por tentativa de assassinato. A kuwaitiana faz sua defesa, invertendo o acontecido, dizendo que filmou uma tentativa de suicídio da empregada. Só que a moça, apesar de graves ferimentos, sobreviveu e disse que sua tentativa era de fuga de uma situação de escravidão doméstica comum no país. Os migrantes da Etiópia – caso da empregada – são submetidos a trabalho escravo no Kuwait. Todos os capítulos dessa tragédia estão eivados da maldade humana que, como disse uma amiga, parece estar inscrito no nosso DNA. O romano Terêncio (195-159 AC) vaticinava: “nihil humani a me alienum puto” (nada do que é humano me é estranho).

O valor da vida, o bem nosso mais precioso, as nossas banalidades, todas parecem caber num mundo virtual para ser mostrado. Fotografa-se o que se come, onde estamos, a reunião, o namoro, o google dá o local exato em que nos encontramos, os estabelecimentos – sejam bares, cinemas, livraria – que frequentamos. Há um aplicativo que diz sempre onde seu amigo(a) está. Perdemos a privacidade e, pior, parecemos gostar disso. E gastamos mais tempo em mostrar a realidade do que vivê-la.

Mas a maldade, que nos acompanha, vez em quando aparece também nesse exagero em se viver o virtual. Muitas das vezes o perverso tenta tirar o vídeo que o denuncia. Às vezes não dá tempo e a inconfidência já foi apropriada pelas redes sociais com sérias consequências.

Mas parece inimaginável filmar alguém prestes a morrer sem qualquer intervenção de socorro. Parece inumano, mas não é estranho ao humano, como o poeta romano, quase há dois séculos antes de Cristo, já tinha percebido. O chargista só fez antecipar o real, mesmo que não quiséssemos acreditar.

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[1] Só encontrei referências num site de Sydes Joker: https://www.flickr.com/photos/sydesjokes/17335216002/. Mas pela diversidade de desenhos ali contidos, não parece ser o autor do fabuloso desenho. Se alguém souber, por favor informe aqui.

O vídeo trágico: https://youtu.be/FQw7Za2mzpw

Um comentário em “O VIRTUAL NO LUGAR DO REAL

  1. Nós, os cartunistas também erramos, somos humanos. Mas somos “desumanos” no traço. O choque é necessário para a compreensão duma realidade cruel. Excelente texto, e excelente ilustração, tovarich Edmar. (eu conheço o traço desse cartunista aí, mas não me ocorre o nome agora, vou dar uma pesquisada).

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