A INACREDITÁVEL “LEGÍTIMA DEFESA” DA BARBÁRIE

Uma menina numa escola em Acari é assassinada com quatro tiros e um comandante da Polícia Militar do Rio de Janeiro tem a pachorra de explicar o fato como “dano colateral” de uma guerra que a polícia trava com os bandidos nas comunidades. Atrás da mesma escola, um morador flagra dois policiais executando duas pessoas que pareciam já feridas e ainda aparentavam movimentos. A cena é chocante e a mídia se encarregou de repeti-las diversas vezes, como se fosse possível naturalizar a cena dantesca. Os policiais que atiraram, apesar das imagens explicarem mais que palavras, têm a desfaçatez de justificar o crime como se fosse uma atitude de “legítima defesa”. Os comentários, a quem se atreve a contestar essas situações absurdas, nas redes sociais e nos blogues, são de um cinismo exasperador com gracejos debochados, do tipo “está com pena, leva pra casa”, “vão querer dizer que eram trabalhadores” ou o indefectível bordão fascista tupiniquim, cunhado por um conhecido político de extrema direita, “bandido bom é bandido morto”. Parece um mantra que é repetido por autoridades, agentes públicos e a mais fiel representação do senso comum, como a justificar a mais legítima defesa da barbárie.

O absurdo e inacreditável é descobrir que, os que pensam e concordam com que é denunciado neste texto, somos a minoria. A maioria, se exposta ao texto, verá no parágrafo acima mais um defensor dos direitos humanos de bandidos. Para o senso comum da maioria, só faz sentido direitos humanos para os “humanos direitos”, como se fosse possível uma luz na testa que identificassem os “homens de bem”. Se você se surpreende com o que eu estou dizendo tente conversar sobre o assunto (sem emitir opinião que induza uma concordância forçada, claro) com seus vizinhos, no seu trabalho, nos bares, nas vendas, no táxi, no cabeleireiro e até nas comunidades onde esses crimes bárbaros são cometidos. A maioria estará sempre fazendo uma inacreditável defesa da barbárie. E essa situação parece se legitimar no senso comum. Os programas dos apresentadores justiceiros, que defendem os bons contra os maus, encontra audiência e concordância nas referidas comunidades onde o Estado não alcança. Lá, a defesa dos que se julgam “do bem” é colocada nas mãos dos pastores de Deus e de milicianos justiceiros, braço civil da polícia militar e bombeiros, que como uma praga disputam o poder paralelo com o tráfico. Às vezes para tomar o seu lugar e passar para o outro lado, pois tênue é a separação de um só lado da mesma moeda. O outro lado são os agentes do Estado, garantindo o mesmo valor dessa mesma moeda.

E porque somos a minoria, talvez explique nosso fascínio pelas redes sociais onde nos refugiamos entre os iguais, bloqueando quem não reza na nossa cartilha. E, estando entre iguais, acreditamos na nossa hegemonia. Apenas uma ilusão. As redes são bolhas virtuais, que não representam a realidade.

Trabalhei muito nas comunidades pobres do Rio de Janeiro e nunca me acostumei com a aflição de uma mãe que perdeu seu filho numa guerra com a polícia. Sempre reclamava de que seu filho era um trabalhador, um menino direito. Nunca percebia que estava autorizando a morte de quem fosse traficante, a maioria a quem se chama bandidos na comunidade. Nunca percebia também que a linha divisória entre usuário e traficante quase inexiste na comunidade. E o choro sempre era em função de um “bom” menino, mas concordando que os maus poderiam ser eliminados. Legitimava a matança dirigida aos maus, o que é um absurdo de desrespeito às leis sociais.

E essa inútil guerra às drogas contribui muito para a situação de barbárie que estamos vivendo. A guerra da barbárie é diferente das outras guerras. Guerras tem regras contra atitudes em um código onde a desumanidade passa do limite do que na guerra se acha razoável. Uma execução de pessoas feridas indefesas ou de inocentes na linha de tiro de uma guerra sem fim, nem finalidade, certamente seria denunciado em acordos internacionais de uma guerra entre exércitos. Na barbárie não. E o pior: ela parece legitimada entre nós. Uma menina ser morta por quatro tiros, dentro de uma escola, por mais absurdo que seja, na barbárie é vista apenas como um efeito colateral. Duas execuções de supostos bandidos, feridos e caídos ao solo sem reação, é apenas legítima defesa de uma situação de barbárie que leva ao genocídio de pretos e pobres de uma comunidade que foi apartada da sociedade. Sociedade que legitima a barbárie.

 

 

4 comentários em “A INACREDITÁVEL “LEGÍTIMA DEFESA” DA BARBÁRIE

  1. Só num país de merda se justifica toda barbárie. Esse é o nosso país. Toda reflexão só é feita por quem tem essa capacidade, a nossa sociedade quer exatamente isto que está aí, numa cegueira assustadora. E como toda mudança é fruto de reflexão?!
    Lelê

    Curtir

  2. Realmente rebaixamento de niveis de consciência, atrelado a dominação ideologica e colonização cultural- midiatica, por uma estrutura social do gado ao ser encaminhado ao matadouro. Primeiro saúde mental e coletivo ritual, para a restauração da linguagem. Valeu xara.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s