OS FANTASMAS DO ALVORADA

Juscelino caminhava incrédulo, chateado porque o palácio que mandara construir era habitado novamente por um golpe de estado e recordou que não conseguiu, com sua assombração, despejar os inquilinos da redentora – quando voltou ao palácio, depois que os militares mandaram matá-lo. O último, que preferia cheiro de cavalo ao de povo, que prendia e arrebentava os fantasmas que ousassem aparecer nos corredores do Alvorada, agora era um deles. Juscelino dizia que Tancredo chegou só depois que os militares saíram. E Tancredo nunca entendeu porque Sarney assumiu seu lugar e não morreu nunca, porque Collor foi cassado, mas tentou assessorar Fernando Henrique que foi ali colocado pelo real inventado por Itamar. E Itamar andava prometendo que o neto do Tancredo jamais poria os pés no palácio. Intriga de mineiros, não acaba nem depois de mortos.

Jânio tomou sua Fogo Paulista, pegou a vassoura e saiu arrastando para importunar a nova família que habitava o palácio. Acreditava ser o pai, a filha e o neto. Mas Jânio continuava bebendo muito. Os fantasmas fardados não gostaram do novo presidente, preferiam um fardado ou aquele “dos nossos”, o Bolsonaro. Diziam, entre eles, que esse árabe de São Paulo era mais feio que o Castelo Branco cearense e mais frouxo do que o Costa e Silva. Costa e Silva zangou, mas foi contido pela Junta Militar e Castelo, sem conseguir pôr a gravata no pescoço, não gostou da comparação com temeroso habitante do palácio. Jango chamar-lhe-ia usurpador e não entendia como o vampiresco chegara ali sem os tanques. Mas Jango tinha medo do Michel, quando cruzava sozinho com ele nos corredores do Alvorada. O fantasma do Jango ainda tinha medo de golpistas. E se assustava até com os fantasmas militares.

Juscelino, aproveitando a união dos militares para assustar o intruso, juntou-se a eles. O Itamar também, achando que o intruso era uma invenção do Fernando Henrique para chegar ao governo, como fizera com ele, Itamar. Ajeitou o topete com saudades do fusca e da mulher sem calcinha no sambódromo. E ajudou a fazer Buuuuu, aquele grito que os fantasmas sabem fazer para assustar os indesejáveis. Jânio preferia gritar uma mesóclise mais aterradora do que Michel sabia fazer. Jango tinha medo do Michel, mas dera para cantar a Marcela quando ela estava sozinha num quarto escuro. Ela jura que foi atacada.

Michel Temer voltou ao Jaburu após noites sem dormir no Alvorada. Disse que ficou com medo de fantasmas, de que o ambiente era muito pesado, tinha um clima ruim. A recatada e do lar parece que sentiu as mesmas vibrações e outras intraduzíveis.

O palácio do Alvorada continua mal-assombrado. O Vampiro da Ópera é quem foi embora jaburu. Teve muito medo das mesóclises de Jânio. Marcela tem saudades, mas nada fala por ser recatada e do lar. Sabe que seu papel é fazer ajustes nos preços de supermercado, cuidar da casa e do filho e não ter saudades de um fantasma.

Talvez Michel não tenha ficado no Alvorada porque ele é apenas um fantasma de presidente que nunca foi eleito.

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