A VACA TÁ INDO BREJO

(Edmar Oliveira)

Não sei pra quem é mais novo. Mas os que já rodaram nesse mundo como eu, milita ou simpatiza com o campo das esquerdas, estamos vivendo uma situação inédita na banalização do cinismo político com a aprovação descarada de uma maioria silenciosa. Já tivemos o desprazer de ver uma direita raivosa, torturadora e assassina na ditadura, um combate cruel e covarde aos militantes de esquerda. Mas isso se fazia nos porões, como se dizia. Mesmo quando a ditadura foi escancarada, tinha a desaprovação – nem que fosse por vergonha – da nação, da mídia, dos intelectuais e não nos sentíamos assim tão desamparados. Lutamos e morremos por uma causa justa, que com certeza seria reconhecida depois e por isso mesmo nossos inimigos tinham vergonha em se descobrirem vilões da história. Foi-se esse tempo. Foi cruel, doloroso, mas sabíamos em que exército lutávamos e quais as nossas diferenças.

E eu achava que esse tempo tinha ficado para trás na história. Pelo menos, na minha história. Achei que a democracia – com seus defeitos – tinha vindo pra ficar mais tempo. Até para dar sentido à nossa luta. Eis que um governo, não por seus erros que foram muitos, mas por pequenos acertos no campo da esquerda – como uma mínima melhora na distribuição de renda – despertou a ira de uma direita que vinha envergonhada e no armário até então. De repente eles foram às ruas clamar contra um comunismo inexistente, um bolivariano que eles nem sabiam do que se tratava, vestiram uma camisa amarela, mandaram a presidente tomar no cu sem desfaçatez, gritavam para que nós fôssemos pra Cuba (ironicamente quem foi foram Obama e o Papa), bateram panelas raivosamente, gritaram contra a corrupção dos vermelhos (que de fato havia) para separá-la da corrupção de bandidos que foram elegidos a novo governo. Resultado: um impedimento de uma presidente sem amparo constitucional. Os bandidos não precisaram mais do partido que ganhou as eleições (o maior erro do partido do antigo governo foi pensar numa união estável com os bandidos). A direita aplaudiu a saída dos petistas. Os bandidos tomaram de assalto o poder, para roubar mais e fazer as medidas cruentas contra a população que a elite deseja. E o partido do governo que se achava esquerda ficou atônito. Os bandidos não dormiam na sua cama até então? E esse partido tinha ocupado um lugar da esquerda que não mais havia. Então?

Onde vamos parar? O que chama atenção é o cinismo desavergonhado de quem usurpou o poder. Acomodaram-se para parar uma operação que prendeu ladrões petista – antes que chegassem neles. E a classe média que foi às ruas bater panela assiste pateticamente a perda do seu emprego, o direito à aposentadoria, a escola e saúde pública. Esmerdalhou-se a si mesma num dizer chulo para uma atitude imbecil.

Mas foi por essa classe média que eles puderam ser cínicos. Puderam perder todo o pudor para se apresentarem como ladrões que querem “participar de uma suruba pra todo mundo” do poder, no dizer de um ministro golpista. O que foi a sabatina de um energúmeno sem a menor aptidão para ser juiz do supremo? Uma vergonhosa suruba de trocas escusas apresentadas pela mídia como sendo a coisa mais natural do mundo. Você só tem informação do que verdadeiramente ocorre por essas terras lendo a imprensa lá de fora.

Temos então um bando de ladrões do dinheiro público, que usurpou o poder para fazer os desejos da elite rentista e das grandes empresas internacionais. Fazer um paraíso da rentabilidade do dinheiro de aposta e tirar todos os direitos dos trabalhadores para que a mais-valia possa ser extraída numa plenitude nunca vista. Não temos aqui os interesses do capital nacional respeitado, dos pequenos empreendedores. Os grandes engolirão os pequenos no inevitável apetite predador do capitalismo. As nossas empresas públicas estão sendo vendidas à preço de banana. Os trabalhadores não terão sequer panelas para bater. A classe média, idiotizada, empobrecerá – quando bateu panelas na esperança de entrar na elite. Esperança alimentada sem nunca ser alcançada. Por melhor que seja sua remuneração, se precisa trabalhar para viver, você não pertence a elite. O rico não tem que trabalhar. Você trabalha por ele. Ele só precisa ter os meios de produção, um velho barbudo cantou essa pedra há muito tempo.

Mas nunca eu tinha visto, uma degeneração do poder constituído como agora. São um bando de salafrários com interesses no dinheiro público sem ideologia. A direita os usa para conseguir seus interesses. Mas isso não se sustenta a longo prazo.

Estamos vivendo uma situação de anomia e corremos o risco de ver um país com ausência de regras e normas, onde os indivíduos desconsideram o controle social de um governo corrupto e amoral. Ou algo acontece para deter esse processo de diluição moral ou chegaremos à barbárie em breve. Antes que a classe média que bateu panelas possa perceber. Antes que os que não se importaram com a destituição de um governo legítimo entendam que deixaram subir ao poder uma cloaca que nos levará ao esgoto da história. Somos culpados por pensamentos, palavras e obras.

É preciso deixar de seguir a vaca indo ao brejo. Sucumbiremos todos!

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